Kevin tem tudo. Kevin é um adolescente. Quase homem. Kevin não gosta da escola; não gosta de comida; não gosta de suas roupas; não gosta de filmes e, sobretudo: parece estar sempre entediado. Kevin é um garoto entediado. Desde criança. Kevin gosta de escrever assim, deste jeito, sem vida mesmo. Kevin parece não existir, mas querendo ou não, Kevin apenas representa aquilo o que há de ruim em nós mesmos. Ou quase isso. Antes de explicar essas linhas estranhas que você, meu caro leitor, acabara de ler, é bom você saber que sim, esse texto conterá spoiler. Impossível não ter, portanto, se ainda não leu o livro ou filme: pare agora mesmo. Quer dizer, pode até ler, mas sem ressentimentos, ok?
Você, com certeza, já ouviu falar de "Precisamos falar sobre o Kevin", filme lançado no ano passado. Porém, não é algo totalmente novo. O filme é baseado no livro da escritora Lionel Shriver (e tenho a impressão de que Rubens Ewald, o crítico mesmo, a destacaria pelo nome unissex e pelo jeitão "Bowie" que está na foto da aba no livro, mas isso é apenas uma divagação momentânea já que esses dias me espantei com um comentário dele falando de como Carey Muligan tem "cara de velha", mas, enfim...). O livro foi lançado em 2005 (ou 2004? Acho que foi 2005 mesmo) e tinha aquela capa inicial que eu considero perfeita (ao lado): um garoto com a cabeça de um gato, algo como remetendo a "lobo na pele de um cordeiro", sendo assim, creio que seja um lobo propriamente dito na cabeça do tal garoto, mas a questão é que o livro não possui mais essa belíssima capa. O livro que ganhou um relançamento devido ao sucesso do filme, agora possui o casal Tilda Swinton, John C. Reilly e Ezra Miller como grandes "protagonistas" da capa. Mas tudo bem, a capa não é de toda mal e até convém, já que ultimamente as editoras se apegaram neste conceito para vender mais livros.
Bem, claro que a minha ideia era ler o livro antes de ver o filme e assim foi feito. Não nego que até eu mesmo me surpreendi com este feito, já que não ando lendo e vendo filme como deveria atualmente, mas foi bacana fazer esta dobradinha (terminei o livro em um dia e vi o filme no dia seguinte!). O livro? É muito bom. Não vou ficar aqui tecendo diversos elogios já que é de se esperar que o filme tenha mais conteúdo que um livro da Stephanie Meyer, por exemplo, (nada contra! Tanto que eu li também!). Mas o bacana foi perceber que o filme não deve em nada ao livro. Exatamente: você não leu errado. Acho que estamos tão acostumados a ver filmes baseados em livros serem tão desastrosos que acabamos -infelizmente- esperando pelo pior. Claro que, em diversos momentos e por motivos óbvios, o livro acaba saindo na frente, porém, o filme segue o livro à risca e até mesmo faz um bom uso de diversos diálogos e pensamentos que lemos no livro. Não que eu tenha feito diversos destes comparativos com outros filmes e livros, mas achei esse ponto realmente importante de se destacar em "Precisamos falar sobre o Kevin".
Aliás, o filme segue também a linearidade utilizada no livro. Note que acompanhamos três épocas em paralelo na vida de Eva Khatchadourian (Tilda Swinton): a vida antes de Kevin (e seu romance com o seu marido, Franklin), a vida durante a infância e adolescência de Kevin e, claro, a vida atual de Eva. São três fatores importantes para entender o ponto principal do filme. Inicialmente, pode soar confuso e até mesmo inútil, mas é algo que tem um sentido maior no livro. Afinal, Lionel não quer por em discussão o que anda acontecendo com os jovens atualmente, mas sim a questão daquele amor incondicional que é praticamente uma obrigação para uma mãe sem (ou com) experiência. Eva tinha tudo e se sentia satisfeita com isso, mas Franklin não. Ele queria filhos e Eva acabou aceitando a ideia pensando no fato de que ser mãe seria algo recorrente (ou como ela prefere dizer: seria uma viagem a um novo país desconhecido). Não há tempo de colocar isso em evidência no filme, mas Eva não se sentia a vontade com esta situação. A gestação foi vivida e apreciada por Franklin. Tanto que o nascimento foi doloroso para Eva. Sem propósito algum, Kevin já veio ao mundo sabendo que para Eva, ele era apenas mais uma experiência de vida. Desde o primeiro minuto, Kevin era filho de Franklin, não de Eva.
Eva tentava. Obrigava-se a amar o seu filho, mas tudo começou a se torna difícil com o crescimento do mesmo. Kevin não deixava transparecer carinho, sentia apenas raiva. Raiva de ter sido expulso da barriga de sua mãe. Não fica totalmente explícito, mas neste sentido, Lionel não consegue definir o caráter de Kevin. Afinal, Kevin não tem explicação, ele é apenas um garoto com ódio por tudo. Apenas isso. O problema é que não é uma rebeldia comum, e sim uma "qualidade" de sua personalidade. De certa forma, Kevin começou a entender o sentido da perfeição. Kevin queria fazer algo ou sentir algo que fizesse tudo aquilo valer a pena; Não é que Kevin não se sentia valorizado ou amado. Na verdade, este era o problema: era muito amor e muitas dúvidas para uma pessoa só. Kevin foi crescendo desta forma e com isso foi criando uma personalidade baseada em fatores estranhos e atípicos. Sim, creio que até podemos culpar os pais neste sentido. No livro, Eva fica mais preocupada com o bem estar de sua família e com jeito de Kevin, mas em nenhum momento ela se impõe ou tenta mudar o percurso, ela apenas aceita o fato de Kevin ser assim. Claro que há toda aquela relação com o seu marido, já que o mesmo parece ser feliz ao acreditar na família feliz americana. Kevin não teve um redirecionamento. Ele foi apenas introduzido nisso tudo sem um aviso prévio.
O livro é detalhista e muitas vezes chega a ser cansativo, mas é uma leitura agradável e instigante. Pra chegar ao final é coisa de apenas um fôlego. Agora, o que podemos dizer da tempestuosa relação de mãe e filho? O final acaba respondendo tudo. Eva amava tudo aquilo e até estava em sua zona de conforto. Acabou comprando a ideia e até mesmo o fato de "pegar uma penitência". Na verdade, Eva para mais uma sadomasoquista passando por uma verdadeira prova de fogo, mas sim, é impossível não se sensibilizar com todo aquele teor dramático envolvendo "perdas". Porém, Eva sabia que já estava perdendo desde o momento em que havia concebido Kevin. Eva sabia que iria aprender a amá-lo, assim, deste modo. Sei que parece meio vago, mas só agora eu percebi que tudo que o filme (e o livro) entrega é complexo e pessoal demais. Mas uma coisa é certa: Kevin era tudo o que Eva sempre quis; Ele não era filho de Franklin, era mais dela do que dele. E antes de terminar este maravilhoso texto, tenho que ressaltar o quão maravilhosa Tilda Swinton está neste filme. Extremamente esplêndida; em todos os sentidos.






6 comentários:
assim, essa foi a sua maior critica né? em tamanho?
Eu preciso dizer que Rubens Ewald Filho não é referência para NADA neste universo.
E sobre a crítica eu nem preciso dizer que você está se superando, seu fofo!
Beijos
Alan, meu querido, que texto primoroso, parabéns! Sua obra-prima, rs! O filme é realmente sensacional, em um conjunto todo, pouco apreciado, mas que futuramente já podemos imaginar um "cult", para entender bem basta ler esse seu perfeito texto!
O Rubens não me diz muito, não. Sou muito mais o Raspante... hehehe! Quero ver e como adoro a Tildona acho que vou curtir! Hugzão, Alan!
Domingo Marília Gabriela citou este filme em seu programa. Quer vê-lo!!!
Parabéns pelo blog, sempre com excelente posts.
Abração Alan!
o kevin era uma pessoa muito mas muito inteligente e eu acho que a mae nao deu muita ateçao para ele periso que ele se criou um mostro os pais deixavao ele faze tudo oque ele queria tipo arco e flexa e quando e furou o olho da irmã ninguem fez nada ninguem disse para de praticar isso mais nao fizerao nada mas do que nada eu sou muito fã dele ele e perfeito
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